Categoria Opinião  Noticia Atualizada em   18/06/2013   às  07:30:04                   
A PEDAGOGIA DA PRESENÇA
Meu interesse natural pela Educação me levou a conhecer a proposta pedagógica tida como pioneira, do professor Antonio Carlos Gomes da Costa, pedagogo, escritor, consultor e autor de dezenas de livros e artigos.
 
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Antonio Carlos alcançou notoriedade quando dirigiu durante sete anos a FEBEM Minas Gerais em Ouro Preto. Foi um dos redatores da Lei 8069/90(ECA). Nasceu em Belo Horizonte (1949), onde residia. Um acidente doméstico botou o ponto final na sua vida no dia 04/02/2011.

Meu contato com Antonio Carlos foi em 2008, participando de um curso por ele ministrado, em Guarapari. Acredito que todos os participantes saímos grandemente impressionados com a cultura, a simpatia e o exemplo de vida do eminente professor, sem falar do conteúdo desafiador a nós oferecido. Impressionados e transformados.

Vale a pena conhecer suas publicações nas quais revela o seu profundo interesse na relação educador/educando, destacada como ponto chave na questão aprendizagem. Como verdadeiro educador, o seu foco é o educando - especialmente o adolescente - nas suas dificuldades. O que ele denomina Pedagogia da Presença é, em síntese, uma proposta que chama à ação, não somente os professores, mas também os adultos de um modo geral, por conseguinte os pais, a família. Antonio Carlos bate firme na tecla de que a relação educador/educando precisa ser uma relação significativa, uma relação de qualidade. E a nossa prática vem demonstrando que por trás de nossos admitidos ou não admitidos fracassos está a fragilidade verificada nesse ponto da questão. Como professores, adultos ou pais.

“A reciprocidade é a dimensão essencial da presença”. Até como aperitivo, destaco os três tipos de reciprocidade constantes dessa Pedagogia. O primeiro tipo diz respeito à relação entre duas pessoas. Uma pessoa pode se inclinar para outra. Um pode ocupar o seu espaço na vida de outro. Considere o alcance disso em nível educacional. Eu permitindo a você que me conheça mais. Despindo-me de minhas naturais barreiras e permitindo-me ser conhecido um pouco mais em relativa profundidade. Enfim, deixando cair as máscaras. Sendo eu mesmo!

O outro tipo de reciprocidade refere-se à relação da pessoa consigo mesma. O educador, nesse ponto, trabalha com o educando as formas e os desafios do autoconhecimento. Conhecendo-se mais e melhor, fica fácil a questão do autodomínio e o desejo natural de superar-se a cada dia. Pense no resultado disso no combate a vícios de toda espécie que assediam o adolescente...O professor,seja qual for a sua área, ajudará o educando no aumento de sua autoestima, usada como meio de preservação de sua integridade moral. A família também pode ser orientada nesta direção.

O terceiro tipo é o que leva o educando à prática. O raciocínio é simples: exercitado na forma de ocupar o seu espaço na vida do outro e tendo feito descobertas do seu próprio eu, resta adaptar essa nova visão adquirida na convivência de contextos mais amplos (família, escola, comunidade e trabalho). É nessa dimensão da reciprocidade que o adolescente aprende a demonstrar aos grupos humanos simpatia, vista pelo autor como uma maneira de prestar homenagem à pessoa. Gostei disso: ser simpático é homenagear gente como a gente.

Agora imagine o sentimento que me acometeu diante de uma cena que presenciei, na sala do coordenador. Este, procurando ser simpático a um aluno de 14 anos (ainda na 6ª. série, se me permitem a informação), perguntou-lhe se havia sentido falta da professora que precisara ausentar-se no dia anterior. A resposta do aluno parecia ter sido ensaiada: “- Não sinto falta nem de professor nem de escola. São coisas que nem deveriam existir...”

Agressividade de adolescente à parte, dá para analisar aqui a falta de reciprocidade. Ao invés de aproximação, o adolescente provoca afastamento. Na resposta dada, revela-se a falta de amor-próprio e o desprezo a algo que pode fazê-lo melhor do que é: a educação formal. Faz questão de mostrar despreocupação em ser afável, ser simpático. Poderia até mentir, mas optou pela sinceridade, para não dizer pela grosseria....

Pedagogia da Presença. É isso aí. E muito mais.

Fonte: Redação Maratimba.com
 
Por:  Silvio Gomes Silva    |      Imprimir